CLAUDIA XIMENEZ

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Possui Graduação em Pedagogia pela UNESP(1991),Especialização em Psicopedagogia pela USP (1993), Mestrado em Psicologia da Educação pela USP (2001)e Doutorado pela UNESP (2013). Sou Profa Adjunto no Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), junto à área de Psicologia Educacional, desde 2001. Em meu percurso profissional, atuei como Psicopedagoga Clínica e Institucional em instituições públicas paulistas (São José dos Campos, Bebedouro e Ribeirão Preto) durante 7 anos; Fui Docente na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e na Universidade Estadual Paulista (UNESP) em 2001; Docente e Orientadora de Monografias em Cursos de Especialização na área de Psicopedagogia ; Coordenei um Programa de Extensão, "Ludoteca", onde desenvolvi estudos e orientei monografias, TCCs e bolsistas na tematica "Brincar na Infância em contextos educativos não-formais". Tenho experiência na área de Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: Brincar na Infancia; Ludicidade e Formação de Professores; Memória Lúdica de Professores e implicações na pratica e concepções docente; Cinema e Infância; http://lattes.cnpq.br/1868082043428099

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Relato de um certo Oriente - Milton Hatoum Indicação de leitura

Algumas resenhas sobre o livro


Relato de um certo Oriente, de Milton Hatoum





Relato de um certo Oriente, de 1989, primeiro romance de Milton Hatoum, debruça-se sobre um tema bastante comum: a família e seus dramas. A procura por mostrar as dificuldades presentes na convivência diária de familiares e amigos entre si, com seus diferentes segredos e comportamentos, faz deste um grande enredo.

O romance mostra que o refúgio da memória é a interioridade do indivíduo, reduzido e isolado na sua própria história, quase que incomunicável com outro mundo que não seja o dele.

A memória, a identidade e a reconstituição de lembranças são os temas deste romance. A personagem protagonista de Relato de um certo Oriente consegue, por meio da rememoração de seu passado e com a ajuda das lembranças de outros, enriquecer sua vida, dar sentido e valor à sua origem.

Em Relato de um Certo Oriente a (re)construção do passado é interessante, pois a narradora utiliza de diferentes recursos para reanimá-lo. Seja um odor, seja uma voz, seja um lugar, não importa. Esses e outros recursos serão utilizados como modos de recuperar a memória perdida.

A obra é um relato composto de outros relatos (metarrelatos), distribuídos em oito capítulos, os quais se assemelham ou resgatam a forma oral do narrar, em que uma história é evocada para completar outras à medida que é um ou outro narrador quem detém a posse de certa informação que vai esclarecer uma outra apontada anteriormente (anáfora), ou outra que ainda virá (catáfora). Fala-se em narrativa de encaixe porque se vão reunindo pequenos relatos para que o todo seja/esteja completo.

A trama se passa numa cidade marcada pelo hibridismo cultural e atravessada pelas idéias de fronteira e trânsito: Manaus, uma capital que se separa da floresta pelas águas fluviais e se situa num estado que faz divisa com três outros países. Ela também é a cidade natal do escritor. No livro também estão presentes a diversidade de costumes, línguas, e a convivência entre indivíduos de diferentes nacionalidades.

Em Relato de um certo Oriente, uma mulher visita a cidade de sua infância depois de ter passado quase 20 anos fora. E, a partir dos acontecimentos que se desenrolam após sua chegada, ela vai relembrando e descobrindo histórias do seu passado e da família que a criou.

Ao retornar a Manaus, após ter permanecido internada em uma clínica de repouso em São Paulo, a narradora chega justamente na noite que precede o dia da morte de Emilie, sua mãe adotiva.

Inicia-se, então, um outro trabalho, o de recuperar Emelie através da memória, não apenas a sua, mas também a de outros personagens que entrelaçaram seu percurso de forma significativa ao daquela família: o filho mais velho, o único a aprender o árabe e que também irá se distanciar de todos, ao mudar-se para o sul; o alemão Dorner, amigo da família e fotógrafo; o marido de Emelie, recuperado, mesmo depois de morto, através da memória de Dorner, e Hindié Conceição, amiga sempre presente, a partilhar com a conterrânea a solidão da velhice. Muitas vozes a compor um mosaico, nem sempre ordenado, nem sempre claro naquilo que revela, mas sobretudo rico em pequenos detalhes de extrema significação.

No intuito de enviar uma carta ao irmão, que se encontra em Barcelona, a fim de lhe revelar a morte de Emilie, acaba escrevendo um relato com depoimento de membros da família e de amigos, conforme o irmão lhe pedira na última correspondência que lhe enviara. Esses testemunhos proporcionam uma verdadeira viagem à memória, com regresso à infância e aos fatos marcantes da vida familiar.

Logo no primeiro capítulo, a narradora nos descreve uma parte da casa na qual acabara de acordar, em Manaus. A descrição das duas salas contíguas é repleta de marcas identificatórias do Oriente, indicando uma representação estilizada desse território: tapete de Isfahan, elefante indiano e reproduções de ideogramas chineses são alguns dos objetos de consumo dos ocidentais, tomados como símbolos, que estão presentes nos cômodos.

Em Relato de um certo Oriente as histórias falam das possibilidades e das dificuldades do trabalho com a memória, das tensões e da convivência de culturas, religiões, línguas, lugares, sentimentos e sentidos diferentes das personagens em relação ao mundo. A casa de Emilie, matriarca da família na narrativa do Relato, é um microcosmo onde estas tensões aparecem e são vividas cotidianamente.

O que mantêm a tensão no romance é a narrativa centrada em incidentes – o atropelamento de Soraya Ângela, o afogamento de Emir.

A obra, em sua estrutura e estratégia de composição, parece transitar e oscilar entre a narração – em que a figura do narrador é extremamente importante e o relato é feito principalmente com base nas tradições orais, como uma tentativa de rememoração das experiências coletivas do passado – e o romance, que apareceria como um gênero literário decorrente das transformações da sociedade capitalista, que destrói cada vez mais a possibilidade que a experiência comum viva e se revele no relato dos narradores.


" Este é o relato da volta de uma mulher, apos longos anos de ausência, à cidade de sua infância, Manaus, num dialogo com o irmão distante. Historia de um regresso à vida em familia e ao mais intimo, no fundo é uma complexa viagem da memoria a uma ilha do passado, onde o destino do individuo se enlaça ao do grupo familiar na busca de si mesmo e do outro. Odisséia sem deuses ou maravilhas de uma pobre heroina desgarrada, cujo destino problematico terri sens fios no enredo de um romance, tramado com calma sabedoria pela mão surpreendente de um jovem escritor. O romance é aqui uma arquitetura imaginaria : a arte de reconstruir, no lugar das lembranças e vãos do esquecimento, a casa que se foi. Uma casa, um mundo. Um mundo até certo ponto unico, exotico e enigmatico em sua estranha poesia, mas capaz de se impor ao leitor com alto poder de convicção. Não se resiste ao fascinio dessa prosa evocativa, traçada com raro senso plastico e pendor lirico : viagem encantatoria por meandros de frases longas e limpidas, num ritmo de recorrências e remansos, de regresso à cidade ilhada pelo rio e a floresta amazônica, onde uma familia de imigrantes libaneses, ha muito ali radicada, vive seu drama de paixões contraditorias, de culpas e franjas de luto ao redor de mortes tragicas. A essa ilha familiar retorna a narrativa como a um ponto de recordações, aberto à atmosfera ambigua de um certo Oriente - espaço flutuante onde velhas tradições religiosas e culturais vieram se misturar às imagens da terra, com a aura do sagrado e o gosto sensual de coisas e palavras. A narração remonta ao passado por lances retrospectivos, pela voz da narradora em que se encaixam outras vozes num coral coeso, lembrando a tradição oral dos narradores orientais : caixa de surpresas, de que saltam as multiplas faces das personagens, num jogo de sombra e silêncio, sob a luz ardente do Amazonas. Nela se guardam as hesitações e lacunas da memoria, o que não se alcança do passado - modo obliquo de se deparar com os limites do conhecimento do outro e de si mesmo, enigma ultimo do ser. Reino de figuras fugazes, mas fortes : Emir, que transita para a morte, levando nas mãos a misteriosa flor em que se cifra seu destino ; o fotografo alemão Dorner, que capta com sua generosa atenção o final simbolico do suicida ; o leitor calado e solitario da Parisiense, velho comerciante arabe, capaz de contar historias parecidas às das Mil e uma noites ; e a extraordinaria Emilie, matriarca e matriz de toda a vida da casa, que traz aninhado no colo o novelo de historias de familia, origem e fim do enredo do romance. Como outros em nosso tempo, é este o relato de uma volta à casa ja desfeita, reconstruida pelo esforço ascético de um observador de olhar penetrante, mas pudoroso, que recorda e imagina. Historia de uma busca impossivel, o romance é ainda uma vez aqui a aventura do conhecimento que empreende o espirito quando se acabam os caminhos. E ai que começam as viagens da memoria. "


Romance de foco narrativo, Relato de um certo oriente, do escritor amazonense Milton Hatoum, cruza referências de dois mundos. Amazonas, a terra natal, e Líbano, nação de seus ascendentes, aparecem no mesmo relato. São mundos imagináveis e distantes para o leitor pouco informado sobre a mata do norte ou as particularidades do Oriente. Mundos de habitantes aparentemente exóticos pelo simples fato de serem desconhecidos. Milton Hatoum traz sua personagem de Paris para Manaus, no Amazonas, para contar a história da pluralidade cultural da cidade através de uma família de libaneses, onde a necessidade de convívio com a diferença se estabelece na própria família de avó católica e avô muçulmano.

O escritor amazonense Milton Hatoum, em entrevista à equipe Linguativa, falou sobre sua vida, seus livros, prêmios e sua terra natal: Manaus. Entre seus relatos, Hatoum fala sobre o seu livro, Dois irmãos, consagrado nacionalmente e ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Romance. Atualmente morando em São Paulo, Hatoum fala com nostalgia sobre sua vida em Manaus, sobre a influência da cultura árabe na sociedade amazonense, sobre os anos em que passou escrevendo Relatos de um certo Oriente e Dois irmãos. O primeiro, também ganhador do Prêmio Jabuti, em 1989, já foi traduzido para várias outras línguas. Agora, Dois irmãos segue o mesmo caminho: está sendo traduzido para o inglês, francês, holandês, alemão, árabe, além de já ter sido lançado em Portugal. Assim, o escritor amazonense vai consolidando seu nome na Literatura Brasileira, sem deixar suas raízes de lado.

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